Uma geração brilhante... a espera de instruções
Uma reflexão inquieta sobre autonomia, responsabilidade e o lado sombra da parentalidade atual.
No fim-de-semana, tive uma conversa que ficou a ecoar dentro de mim.
Estava a falar com uma professora universitária, alguém com décadas de experiência no ensino, que me disse algo inquietante:
“Os alunos mais empenhados, os com melhores notas, e os mais perdidos, os que não sabem o que querem, têm uma coisa em comum:
não tomam iniciativa. Estão sempre à espera que alguém diga o que se deve fazer.”
Fiquei em silêncio por uns segundos. Porque aquilo fazia sentido.
E porque me tocava em algo que tenho vindo a observar — e a sentir — há bastante tempo.
Os jovens de hoje são, em muitos aspetos, incrivelmente inteligentes. Têm acesso a conhecimento que nenhuma geração anterior teve. São fluentes em tecnologia, articulados em questões sociais, atentos à diversidade, rápidos a pensar, sensíveis à injustiça.
E têm ainda algo que nenhuma geração teve tão cedo: as redes sociais como fonte constante de informação e validação. Encontram respostas rápidas para tudo. Tutoriais, explicações, opiniões, diagnósticos, tendências, soluções.
Mas o que é rápido… raramente é profundo. E quando a situação exige um pensamento mais demorado, uma decisão sem guião, uma escolha sem aprovação imediata… muitos parecem bloquear. Não por falta de inteligência, mas porque não estão habituados a esse esforço interno.
O músculo da autonomia e do pensamento crítico não se treina a deslizar para baixo num feed. Treina-se na frustração, no silêncio, na dúvida, no erro.
Mas muitos não sabem o que fazer quando o caminho não está desenhado por alguém de fora.
Não tomam iniciativa.
Não arriscam.
Não tomam decisões sem validação.
Esperam instruções, validações, permissões.
Esperam que alguém lhes diga: “é por aqui”.
E se ninguém disser… ficam parados.
E não é por falta de capacidades.
É por falta de treino.
Treino na autonomia, no erro, na responsabilidade pessoal.
O síndrome do "diz-me o que fazer"
Recordo-me de quando trabalhei em recursos humanos. Um dia, recebi uma chamada de um pai de alguém que se tinha candidatado a uma função na empresa. O pai ligou para perguntar como estava a correr o processo de recrutamento… do filho.
Adulto. Licenciado. Com CV próprio. E com um pai ao telefone por ele. Tive de explicar ao pai que o processo de recrutamento do filho não beneficiava de um telefonema- do pai…
Na altura, achei cómico. Hoje, acho profundamente simbólico.
Esta história não é sobre um pai em particular.
É sobre uma tendência que se está a tornar estrutural:
Pais que querem tanto o melhor para os filhos… que não os deixam experienciar o pior.
Ou mesmo o normal.
Tentamos garantir que tudo corre bem.
Que a criança entra na escola certa, no curso certo, que tem explicações, terapia, atividades extracurriculares, apoio emocional, lanche saudável e autoestima elevada.
Tudo pensado.
Tudo controlado.
Tudo a girar em volta dela.
Pelo caminho… esquecemo-nos de algo essencial:
a vida não gira à volta de ninguém.
E se a educação não espelhar essa realidade, a entrada no mundo adulto vai ser um choque.
O efeito da "parentalidade curling"
A metáfora não é minha, mas gosto muito dela. A parentalidade curling é aquela em que os pais vão à frente da criança como os jogadores de curling: com as vassouras a limpar o caminho, a tirar todos os obstáculos para que a criança deslize suavemente pelo mundo.
Só que a vida não é uma pista de curling. E se uma criança não aprender a tropeçar, a resolver, a improvisar… torna-se um adulto que espera que alguém o venha salvar.
"Careless People", convulsões e indiferença
Estava a ouvir o livro Careless People, da Sarah Wynn-Williams, (um livro sobre a realidade de dentro da empresa Facebook) quando fui apanhada por uma cena absurda — e ao mesmo tempo muito real.
Uma pessoa está a ter uma convulsão num escritório. E os colegas… continuam a trabalhar. Uma colega, sentada ao lado, nem levanta os olhos. Ninguém reage.
Isto, mais do que indiferença, é desconexão total da responsabilidade pessoal.
“Não é comigo.”
“Não sei o que fazer.”
“Alguém há de fazer.”
Este é um tipo de mentalidade que me assusta. Muito. E que sinto que está, subtilmente, a ser semeada quando não deixamos as crianças sentirem desconforto, frustração, erro, ou responsabilidade.
Porque responsabilidade pessoal não é só cumprir tarefas. É olhar para o mundo e pensar: "O que posso fazer para contribuir para um mundo melhor?"
O lado sombra da parentalidade consciente/positiva/gentil/respeitosa…
Agora, vou arriscar ser mal interpretada. Mas preciso de dizer isto.
Sou defensora da parentalidade consciente, respeitosa, gentil. Mas também sou crítica de quando ela é confundida com uma parentalidade permissiva. Ou uma parentalidade que existe mais para eliminar a culpa dos pais através da eliminação dos obstáculos das crianças…
Quando tudo gira em torno da criança, quando nunca se aborrece, quando os adultos evitam o desconforto a todo o custo, quando os pais se anulam para manter a harmonia…
…então já não estamos a praticar parentalidade consciente.
E isso não serve nem a criança, nem o mundo onde ela vai viver.
Como dizia o meu mentor, Jesper Juul:
“Uma criança que está sempre no centro…
não se sente parte do todo.”
E sentir-se parte do todo é o que mais precisamos de ensinar. Porque só assim é que uma criança cresce a saber que tem valor — e que o mundo também tem valor para além dela.
Autonomia é afeto em forma de confiança
É fácil dizer “amo-te muito”.
É mais difícil dizer “confio em ti para resolver isto sozinho”.
Mas é assim que começa a autonomia, a capacidade de assumir responsabilidade pessoal e a coragem de avançar. É afeto em forma de confiança.
É dizermos:
“Estou aqui se precisares, mas não vou fazer por ti.”
“Não te vou salvar do desconforto, vou sentar-me ao teu lado enquanto o sentes.”
“A tua voz importa, e há outras vozes também.”
“És único, e não és o centro do mundo.”
A ação começa em nós
Se queremos jovens mais autónomos, mais ativos, mais atentos, mais responsáveis…
temos de olhar com honestidade para o que estamos a semear.
E talvez a ação comece com perguntas desconfortáveis, como:
Em que momentos é que estou a fazer pelos meus filhos o que eles já conseguem (ou deveriam começar a tentar) fazer sozinhos?
Que mensagens passo quando resolvo tudo em vez de os deixar tentar, falhar, levantar-se?
Que valores passo quando evito o conflito, o tédio, a frustração?
Se queremos mudar o mundo… temos de começar por educar humanos que saibam ser responsáveis nele. Acredito que precisamos de preparar os nossos filhos não para um palco onde são estrelas, mas para uma vida onde são autores.
E tu, o que sentes sobre isto?
Estamos a educar para a autonomia ou para a dependência disfarçada de amor?
Quero muito saber a tua opinião. Partilha comigo nos comentários — ou envia-me uma mensagem direta, se preferires um espaço mais íntimo.
E se achas que este artigo pode fazer alguém pensar…
Mais do que nunca, precisamos de conversas honestas sobre como estamos a educar — e sobre o tipo de mundo que estamos a preparar.

Que pertinente este texto, nesta altura. Tenho sentido muito esta tendência nos meus alunos de 18/19 anos no ensino superior, incapazes de tomar iniciativa ou ter pensamento crítico. Há aqui responsabilidade dos pais, mas também das escolas e da sociedade em geral. Para ser ainda mais honesto, sinto que este tema está ligado também às temáticas que a série Adolescent aborda. A parentalidade Curling e permissiva abre espaço para a permeabilidade destes jovens a conteúdos que aceitam sem reflexão. Sem presença. Como procuram que lhes digam o que fazer e pensar, estas culturas tóxicas acabam por ser um subterfúgio terrível nalguns casos. As perguntas que elencas são essenciais mas pergunto-me como fazer chegar estes processos às massas cada vez mais alienadas. Obrigado por esta reflexão, fez-me muito bem.
Que boa reflexão! Sinto muitas vezes essas dúvidas com as minhas filhas de 15 e 17 anos e os jovens e pais que me rodeiam. Acredito que muitos destes comportamentos dos pais dizem por vezes mais sobre os pais, os seus receios, medos e angústias, do que sobre os filhos, e que o autoconhecimento e reflexão dos pais ajuda muito a criar filhos mais autónomos e responsáveis.